Leslie Kaplan - Les outils
traductions/translations - Deus nao é casado, Invenção da linguagem e democracia

Penso que a interrogação a respeito das palavras, a
respeito da linguagem,
faz parte da vida democrática, da vida em democracia
a linguagem é o primeiro bem comum
a prática da linguagem é uma prática do comum, da vida em comum
e, assim,
a linguagem é o primeiro ameaçado, ameaçado sem parar,
por qualquer questionamento do comum, da vida compartilhada
por tudo o que visa imobilizá-la
torná-la rígida
empobrecê-la
esvaziá-la
por tudo o que visa dela fazer um mero instrumento de comunicação
achatado
uniforme
unilateral
consensual
suprimindo-lhe a sua dimensão polissêmica, e sua dimensão
de apelo

Esta questão é a preocupação de qualquer escritor,
quaisquer
que sejam suas posições políticas, ou sua visão do mundo

Tomarei como exemplos dois escritores
“reacionários” no plano político, Flaubert e
Dostoievski, os quais brigaram cada um a seu modo
contra todas as formas da linguagem codificada,
convencional, plana, uniforme :
– Flaubert e seu Dicionário das idéias prontas
lembro-lhes as primeiras palavras de seu dicionário :
ABELARD (Abelardo), ABRICOTS (damascos, abricós), ABSALON (Absalão), ABSINTHE (absinto), ACADÉMIE FRANÇAISE (Academia Francesa), ACCIDENT (acidente), ACCOUCHEMENT (parto), ACHILLE (Aquiles), ACTRICES (atrizes)...

esta lista mostra que o princípio ativo é : qualquer
palavra pode tornar-se uma idéia convencional
Flaubert persegue na idéia pronta a estupidez e na
estupidez alguma coisa, digamos, de “voluntária”
no sentido da “servidão voluntária” de La Boétie

mas precisemos, por exemplo, na letra S, fim :
“SOUPIR (Suspiro) : Deve ser exalado perto de uma mulher
SPIRITUALISME (Espiritualismo) : O melhor sistema de filosofia
STOÏCISME (Estoicismo) : É impossível
STUART, Maria : Apiedar-se de sua sorte
SUFFRAGE UNIVERSEL (Sufrágio universal) : Último termo da ciência
política
SUICIDE (Suicídio) : Prova de covardia
SYBARITES (Sibaritas) : Bradar contra
SYPHILLIS (Sífilis) : Todo mundo é mais ou menos afetado por ela”

o que impressiona de imediato, claro, é o vazio dessas definições
mas também seu caráter autoritário :
muitos infinitivos, trata-se da ordem do pensar, e o tom é peremptório,
cortante
isto é, a idéia pronta, sua tolice oca, acompanha
a proibição de pensar
e através do Dicionário vê-se esboçar um personagem,
o “burguês” satisfeito, que pensa e fala conforme
acumula os pensamentos e as palavras são objetos para arrumar no
seu armário
e que, com seu ar descontraído, está disposto a reprimir
ferozmente a Comuna...

– Dostoievski e sua guerra contra “a idéia”
Dostoievski assinala os impasses de um pensamento que se
pretende “moderno”, o pensamento do tudo se equivale, do
“se Deus não existe, tudo é permitido”...
e relaciona esta forma de pensar com a perda do
apelo ao outro, o rompimento da promessa, a traição
ele mostra a violência escondida na generalização,
que atribui ao outro um determinado lugar, que o encerra
numa definição irrefutável
ele opõe a palavra viva à “a idéia”
ao que ele chama “2+2=4”,
isto é, a exatidão, a generalidade científica ou pseudo-científica, esmagadora
incontornável, diante da qual só resta
inclinar-se,
mas que deixa passar a vida viva, o detalhe
“há muito tempo que não nascemos mais de pais
vivos, nascemos da ideia”,
é o que ele nos diz nas Notas do subsolo
e ele relaciona, concretamente nesta narrativa, esta
forma de pensar através de generalidades e um assassinato real, a
traição de uma criança

então : o vazio está longe de ser nada
o vazio é agressivo, assassino
é ocupar o lugar
é “eu sou eu e cala a boca”

ver Baudelaire
lembrar-se que o primeiro poema de Flores do mal,
endereçamento Ao leitor, começa com a palavra “asneira”

A asneira, o erro, o pecado, a mesquinharia
Ocupam nossos espíritos e trabalham nossos corpos,
E alimentamos nossos queridos remorsos
Como os mendigos nutrem seus vermes.

Mas entre os chacais, as panteras, os parasitas,
Os macacos, os escorpiões, os abutres, as serpentes,
Os monstros esganiçados, uivantes, rosnantes, rastejantes,
Na galeria infame dos nossos vícios

Há um mais feio, mais malvado, mais imundo !
Embora ele não manifeste grandes gestos ou grandes gritos,
De bom grado fará da terra um bagaço
E num bocejo engolirá o mundo ;

É o Tédio ! o olho carregado por um choro involuntário,
Ele sonha com cadafalsos fumando seu houka.
Tu o conheces, leitor, este monstro delicado,
– Hipócrita leitor, – meu semelhante, – meu irmão.

mas, o que é o Tédio ?
o que me impressiona, é que Baudelaire coloca o tédio em relação com o ódio
um ódio sem desejo ativo
um ódio passivo, sonhador, enfumaçado
estático, imóvel
inerte
e feroz
“De bom grado, ele fará da terra um bagaço/E num bocejo engolirá o mundo”
este Tédio baudeleriano parece-me muito atual
combina com uma sociedade onde reina a idéia pronta, o consensual, o convencional,
uma sociedade de eus isolados
sem diferença, sem outro uma afirmação de si sem conteúdo
puro meio para ocupar o lugar
por nada, simplesmente para ocupá-lo, para impedir o outro de
pensar
e eventualmente para excluí-lo
pensar tautológico : Sarkozy (abril 2009) : “o importante
numa democracia é ser reeleito”..
.
voltarei a essa questão
gostaria de lembrar que Hannah Arendt em sua
análise do Sistema totalitário deu um destino particular
ao clichê
lembrar-se de sua reflexão sobre o que ela chama em
Eichmann em Jerusalém “os clichês euforizantes”,
empregados por Eichmann, após Hitler ou Himmler,
“a batalha do destino para o povo alemão”
“são batalhas que as gerações futuras
não terão mais que conduzir”
“nós sabemos que o que esperamos de você é
sobre-humano : você precisará ser sobrehumanamente
desumano”
Arendt não se satisfaz em repertoriar, sublinhar,
essas palavras esvaziadas de sentido, ela mostra de forma mais ampla
as relações da burocracia, do totalitarismo e da
linguagem
Ver Raoul Hilberg em O extermínio dos Judeus
da Europa
, “O extermínio dos Judeus começou
quando em 1933 a primeira definição do não ariano foi
inscrita pelo primeiro funcionário...”
ver também o estudo da “LTR”, a língua do Terceiro
Reich, de Victor Klemperer
ora,
e isto continua a análise da “idéia pronta” em
Flaubert e da “idéia” em Dostoievski,
é importante notar que a maneira de esvaziar as
palavras, de roubar-lhes o seu sentido, o sentido, qualquer sentido, não se
encontra somente nas palavras de ordem
(como num regime totalitário)
mas também na sociedade de consumo
onde tudo se torna “produto”
onde as palavras tornam-se produtos
por exemplo, no texto “as palavras e as coisas ” a gente
se pergunta o que é melhor, mais vantajoso, o incesto ou
a catarata
onde é promovida uma trivialização,
o não importa o quê, a opinião descomprometida,
o puro eu, eu, eu :
que ocupa a frente da cena,
que é um novo ópio do povo
como um eu pleno, vivo, não existe, o que está
na frente da cena é um eu que se afirma
somente “eu”
oco, vazio
a questão do clichê, da idéia pronta, da convenção
do consensual,
está no centro da reflexão sobre linguagem e democracia,
linguagem e burocracia,
linguagem morta, linguagem viva
daí a importância de conceber a linguagem como uma
criação continuada,
contínua uma criação associada ao encontro, à surpresa, ao
espanto
oposta ao que chamei “a categoria, o compartimento e o caso”
categorizar pessoas, colocá-las em compartimentos, torná-las
casos
ver em Febre , a análise da palavra “dossiê”, das palavras
“cumprir ordens”
retomada entre outros do processo Maurice Papon
que a respeito de Sylvain Mohlo, disse “eu não conheço
este dossiê”
recusa, generalização, banalização, estigmatização
Judeu, Judeu ? Judeu ! Judeu sujo
há uma relação necessária entre invenção da linguagem e
democracia
a democracia, é a recusa da designação de lugares
a recusa da recondução do mesmo
ao contrário a democracia combina com abertura,
a circulação dos lugares, das situações, das palavras, das
idéias
a “democracia” é o regime que, como diz Claude
Lefort, “institui-se e mantém-se na dissolução
das certezas”
ou ainda, “uma sociedade confrontada à contradição
geral que libera o desaparecimento de um fundamento da
ordem social” (a respeito de Tocqueville),
ou ainda, um regime que se edificou “aceitando a
divisão social, o conflito, a heterogeneidade dos costumes e
das opiniões” (a respeito de Arendt).

Mas que tudo isso seja considerado uma tensão, um conflito
contínuos, ininterruptos
sem fim
não se pode terminar com eles, ter a última palavra
(pode-se querer...)
lembremos de Humpty Dumpty, o personagem de cançoneta,
o ovão convencido de si mesmo, arrogante, em Alice no
país das maravilhas
 : the question is : who is the máster, that’s
all, a questão é : quem é o mestre, só
isso, a questão é : quem é o mestre, ponto, isso é tudo
ser o mestre é ter a última palavra
e não esqueçamos que após o enunciado desta suposta
verdade Humpty Dumpty, esse ovão, cai e se quebra
em mil pedaços...
ou seja, há uma relação entre democracia
e aceitação do conflito
e portanto uma certa aceitação da angústia
em outras palavras : a linguagem é o lugar da certeza e da
incerteza
o concreto não é nada se ele não for nomeado
(“isso” = nada)
mas quando nomeado, é reduzido
uma cadeira não é esta cadeira não é esta cadeira
azul não é esta cadeira azul no meu quarto...
a palavra é a morte da coisa
e no entanto a coisa vive na, pela, a palavra
a linguagem, para retomar Hegel, é “a vida que carrega a
morte e nela se mantém”
neste sentido a linguagem é o lugar da angústia

ao contrário, o clichê, a idéia pronta, a convenção, o
consenso é uma forma de se livrar da
angústia
isto é do conflito
apesar talvez das aparências, é o lugar do medo
do medo do conflito
e para começar do conflito consigo mesmo
o clichê é uma forma de impedir o outro na língua
e, para começar, o outro em si mesmo, em seus próprios
conflitos, contradições.

Volto a Baudelaire e ao tédio
“o Tédio” este monstro cheio de ódio
é o não-desejo
o não desejo da língua, do pensamento na língua
o não-desejo pelo outro na língua
a recusa de encontrar na língua e no pensamento
alguém
que por sua vez fale
que coloque em
que por sua vez fale
que coloque em questão o que se pensa
que questione
que seja diferente
a recusa da surpresa, de ser surpreendido
e este outro, esta diferença, supõe um conflito possível
na língua
no pensamento
e também no seu próprio pensamento
o que supõe reconhecer que se é dividido
que não se está forçosamente de acordo consigo mesmo
mas que há um conflito a resolver
um trabalho a fazer
portanto uma angústia
para pensar juntos estes opostos.

Não se deve subestimar a possibilidade sempre
presente de uma redução da linguagem, de uma vontade
de empobrecimento da linguagem,
de uma linguagem em mão única,
a possibilidade sempre presente de uma civilização do clichê<br mas à qual se opõe o “trabalho da cultura” como diz freud, o trabalho do pensamento
que reconhece que a angústia é a “parte divina
do homem” (Heitor de Macedo)
e que busca “fazer coisas com a angústia”
(Rilke)
a literatura faz parte deste trabalho
a literatura : tentar manter o outro na língua
através do que chamei “o detalhe, o pulo e o vínculo”
– o detalhe, não o anedótico
os detalhes estão vivos, eles têm sentido
(não o sentido, mas sentido, um sentido)
o detalhe é um estilhaço do real
enquanto o anedótico gira no vazio, rumina o trivial,
como o clichê que ocupa o lugar
o detalhe opõe-se ao mesmo tempo ao anedótico
e ao dogma (“a idéia” dostoieviskiana)
– o pulo, para retomar Kafka que define o escrever como
“pular para fora da cadeia dos assassinos”,
isto é, na ficção, no possível
o colocar em relação, fazer relação
relacionar coisas aparentemente sem
relação
o amor em suma, e para começar o amor pela vida, já
que “a vida é única”.

traduit par Heliete Karam

©Leslie Kaplan, mis en ligne le lundi 20 janvier 2014

Penso que a interrogação a respeito das palavras, a respeito da linguagem, faz parte da vida democrática, da vida em democracia a linguagem é o

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